Fold
doloroso é fold bom
Por Felipe Mojave - Revista CardPlayerBrasil
Apesar
de o título da matéria ser bem peculiar, eu
realmente acredito que a maioria dos
folds chorados que
acabo dando está correta.
Mas por que são
tão dolorosos assim?
Nesta edição, vou
comentar sobre uma mão que aconteceu comigo no Bellagio,
numa mesa 10-20 NL de
cash,
que ilustra bem essa ideia.
Muitas vezes, quando a gente segue um
raciocínio complexo, mas que faz bastante sentido, ele
é complicado de se executar, seja pelas
odds ou mesmo por
curiosidade. É assim que a minha mente funciona e,
às vezes, um
fold
que parece muito complicado, mas que faz sentido para mim e que seria
coerente, acaba virando um
call
ruim (ou
crying-call,
como dizemos na linguagem do poker).
Tudo bem que o nível dos
cash games que eu
venho jogando é muito alto. Vegas e Los Angeles
são recheadas de profissionais regulares e jogadores muito
bons que mantêm outras atividades como principal fonte de
renda e resolvem comparecer uma ou duas vezes por semana, fora o final
de semana. Especialmente contra essa turma, muitas decisões
acabam sendo complicadíssimas. A mão que vou
apresentar para vocês foi realmente muito intrigante, por
vários aspectos, e acho que ela vai lhes mostrar
vários nuances do
cash
game.
Eu tinha um
stack de 6K e era o
dealer.
Um jogador
tight
aumentou para 175 do UTG, seguido de um
call em MP (
loose) e eu, com
3-3, dei
call
também. Vamos ao
flop
em três jogadores, que vem com
J♦ Q♦ 3♣. Eu finalmente havia acertado a
minha trinca depois de 6 horas jogando com um lucro
momentâneo de 2K.
Apenas lembrando, os jogos 10-20 NL do
Bellagio são muito fortes. A maioria se senta com mais de
5K, e não é surpresa nenhuma encontrar jogadores
com 20K na mesa. O jogo é ultra
deep stacked, e
é por isso que eu gosto dele: acabo entrando com uma frente
"modesta" de 200
big
blinds e sou considerado
short stacked,
conseguindo explorar situações interessantes a
que sou submetido muitas vezes.
Enfim, tenho
posição e estou trincadinho no
flop. O UTG sai
disparando 350 num pote de 555 dólares. O MP, jogador bem
centrado e
loose
(eita combinação forte – o cara era
muito bom mesmo, dinamarquês) dá
call, e a
ação chega a mim com o pote valendo $1.255. Nesse
momento, era difícil analisar o que os meus
adversários tinham. Era possível desde um
overpair,
top pair com
kicker alto (na
mão do
tight
que subiu forte pré-flop) e até mesmo um
straight draw ou um
flush
draw, ou Q-J (na mão do MP, com as
combinações de mão do
tight).
Para mim, aquela não era
uma situação ideal para dar
call e fazer
slowplay, afinal,
eu estava jogando contra mãos indefinidas de dois bons
jogadores, com um bordo totalmente aberto e num pote em que
já há um valor considerável. Eu vinha
apresentando um jogo sólido e bem mixado, portanto poderia
sim ser colocado num possível
draw e ganhar
muitas fichas. Após ter decidido que a jogada mais lucrativa
seria o
reraise,
fiquei pensando num valor bom para manter um dos dois na jogada e
representar que estava tentando roubar o pote mesmo, num semiblefe.
Apliquei um
raise
para 1K redondinho. Mostrei muita força, não?
(Ainda foi uma aposta menor que o valor do pote). O UTG pensou um pouco
e deu
fold
– isso me fez achar que ele largou algo como A-Q ou K-K
–, mas o meu segundo adversário deu o
call mais
rápido que eu já vi.
Nesse momento o pote continha $2.905,
eu tinha $4.825 para trás e o vilão, cerca de 9K.
O turn é um
5♠. Acho que
não teria uma carta mais bonita do que essa no
turn, e eu tive que
me redobrar na concentração para não
abrir um sorrisão na mesa. Ele pensou muito e deu
check. Meu
raciocínio agora é bem simples, mas duplo: se eu
der uma
free card
para ele, corro o risco de perder um pote de 3K no
river contra muitas
cartas que podem azedar o meu pudim; se eu apostar um valor muito
forte, corro o risco de não tomar o
call por
vários motivos, como, por exemplo, ele desistir de quedas
para
flush
ou
straight
simples ou até mesmo dar
fold em K-Q ou A-Q
acreditando que eu tenha uma mão mais forte do que um
draw, por ter
disparado a segunda aposta em vez de controlar o pote. Como eu disse,
essa é uma mão muito complicada e cheia de
nuances.
Novamente decidi que apostar seria a
jogada mais lucrativa. Se apostasse sem me comprometer completamente
com o pote, ele poderia voltar
all-in
com um par, imaginando que eu acelerei a ação no
flop com um
semiblefe. (Caso ele tenha Q-J, por exemplo, creio que em 100% das
vezes ele voltaria a casa no
turn.
Sei que ele tem 100% de certeza de que eu não posso estar
blefando completamente nessa situação.) Apostei
$1.900 num pote de $2.900 e ele, depois de pensar bastante, acabou
dando
call
novamente. Estou muito contente com a minha jogada, pois
está tudo correndo perfeitamente e eu estou escondendo sim a
força da minha mão ao apostar no
flop e no
turn.
O
river
é um
K♠, deixando o bordo
com
J♦ Q♦ 3♣ 5♠ K♠. Essa carta impede qualquer
flush, mas completa
um possível
straight
draw. Fiquei com $2.925 para trás num pote de
$6.705 e, para minha surpresa, ele pergunta quanto eu tenho de frente e
aposta $2.500. Foi uma surpresa gigantesca, pois eu esperava essa
pergunta no
turn,
mas não no
river,
oras! Aí eu fiquei realmente com a pulga atrás da
orelha.
A situação aqui tinha mudado
completamente. Se eu desse
call
no pote de $11.705, teria
odds
de 1-para-4,7 (geral), sendo $2.500 para ganhar $11.705. Pela
nonagésima vez nessa mão eu repito: a
situação era complicadíssima
– e tudo mudou completamente de figura nesse instante.
Comecei a imaginar que ele poderia ter
T♦ 9♦ com duas pontas e
flush draw no
flop, ou
A♦ T♦ com
nut flush draw e
queda na gaveta (a famosa "broca cara"), e resolveu jogar a
mão de maneira diferente. Achei também que ele
poderia estar fazendo
slowplay
com uma trinca de damas ou de valetes. Todas as outras mãos
com valor de
showdown
e
flush draws
que não bateram pediriam mesa no
river. Eu estava
convicto disso.
Mas, e aí? Como eu
faço para dar
fold
nessa trinca no
river
com essas
odds?
Fui lá no fundo do
baú e encontrei a minha teoria, que dá
título a essa matéria:
Fold doloroso
é
fold
bom! (Em sua grande maioria).
E, depois de reanalisar a jogada e ter
muita consciência de que eu não estaria ganhando
com a minha trinca baixa no river contra esse perfil de jogador nesse
tipo de jogada, optei pelo
fold.
Demorei uns 10 minutos ou mais, foi tenso, mas acabei largando mesmo.
Foi muito mais do que complicado esse
fold, pois eu sei
que o vilão é tão inteligente que
é capaz de apostar no
river
até não tendo completado a pedida, pois sabe que
essa é a única maneira de ele levar a
mão caso eu estivesse semiblefando o caminho inteiro (com um
ás, por exemplo). Por mais que improvável que
fosse, ele era capaz disso, mas, como eu disse, seria bem
improvável, e fatos improváveis têm que
me ajudar a dar um bom
fold
na esmagadora maioria das vezes.
Depois que eu disse que estava dando
fold na
mão, ele disse: Você tinha Q-J?
Eu disse: Não, tinha trinca.
Ele respondeu: Você deu
fold numa trinca
aí? Você está falando sério?
Eu disse: Com dor no
coração, mas dei.
Ele replicou: Se você
mostrar a trinca eu mostro a minha mão.
E eu, com uma vergonha danada de
mostrar a trinca e ficar com cara de tonto quando o cara abrisse
qualquer mão pior que a minha, disse: Eu mostro. E abri 3-3
para trinca no
flop.
Ele soltou as palavras: Você
não pode dar esse
fold,
tá maluco? O que é isso?! E abre T-9...
Straight no
river...
Em português mesmo para
ninguém entender nada na mesa, eu falei alto batendo na
mesa: "Fold doloroso é Fold bom, seu Mojave! Esse
é o jogo, garoto!"
Muitas vezes, nessa
situação, você acaba não
sabendo se o
fold
foi bom ou ruim, pois ou é maravilhosamente bom ou
é incrivelmente ruim. Não tem meio termo.
Já dormi muitas vezes com essa
sensação ruim, mas também
já aprendi a esquecer isso mais facilmente (se bem que nunca
é simples assim).
Espero que vocês tenham
curtido e que muitos de vocês tenham aprendido com as
várias técnicas e raciocínios
apresentados nessa jogada.
Meu
Twitter é (@FelipeMojave, e meu site http://www.felipemojave.com.br/ .
Publicado originalmente na revista Card
Player Brasil Ano 3, N°. 31.